FALAR EM PÚBLICO

August 8, 2019

(5m leitura)

Há cerca de dois meses, no meio de uma semana bem complicada, em que eu não estava “eu”, dei uma palestra. Quando terminei, uma das pessoas com quem mais privei durante esse período, disse-me “pareces outra, gostas mesmo disto”. O disto, neste caso, tinha a ver com comunicar em público. E de facto, no fim daquela intervenção, sentia-me outra.

 

Apercebi-me, naquele momento, do efeito físico e mental que estar num palco tem em mim. É mais ou menos o equivalente a uma injeção de adrenalina, é um exercício que me despende muito energia, porque estou nele de corpo e alma, totalmente presente e dedicada, mas o simples facto de ter este imenso privilégio de falar do que me apaixona, do que aprendi, de transmitir uma mensagem que vivo e em que acredito, a outros, é pura realização.

 

Mas apesar de adorar comunicar em público, seja numa simples reunião com uns tantos estranhos ou num auditório cheio de pessoas, não deixo nenhuma intervenção ao sabor do acaso. Este é o meu “guião”:

 

ANTES

1.     PREPARAÇÃO. PREPARAÇÃO. PREPARAÇÃO.

Parto de dois pressupostos: a) o facto de dominarmos um tema não quer dizer que o saibamos comunicar e b) podemos dominar um tema mas, se o vamos comunicar, temos de saber qual é a mensagem chave que queremos transmitir.

E por isso esta é a minha regra número 1. Por paradoxal que possa parecer, é da preparação e estruturação de cada intervenção, que vem a segurança para dar azo ao improviso, à espontaneidade, para não nos aquietarmos com uma possível “branca”. Mais ainda, é durante a preparação que é possível trabalhar o poder de síntese e a assertividade da mensagem. E acredito que saber bem o que queremos transmitir, qual a tal mensagem chave, “levarmos” um fio condutor, é o ponto de partida para qualquer boa comunicação.

E já agora, uma dica adicional, seguida pela pessoa mais desorganizada que conheço (eu: prepare a intervenção com tempo. Se ela for importante para si, não quer correr o risco de a deixar para o último momento.

2.     ADAPTE A MENSAGEM E A LINGUAGEM À AUDIÊNCIA

De líderes a crianças, passando por desempregados de longa duração, ter públicos completamente diferentes tem sido dos reptos mais gratificantes e desafiantes desde que comecei a ser formadora e (uma espécie de) palestrante… E a mensagem que queremos passar pode até ser a mesma, mas deve ser adaptada a quem nos ouve.

E por isso, saber de antemão quem nos vai ouvir, se possível, que expectactivas têm, permite-nos preparar uma linguagem mais “próxima” da nossa audiência, responder às suas questões/expectativas, levar exemplos que mais se relacionem com a mesma e evitar termos que possam causar confusão ou alheamento. E temos assim meio caminho andado para nos fazermos entender.

3.     TREINE. TREINE. TREINE.

Treinar a gesticulação, o tom, o ritmo da voz, as “bengalas” (a caneta na mão, as palavras repetidas, etc…) a linguagem corporal. À frente do espelho, lendo em voz alta, filmando.

A título pessoal, por exemplo, dos aspectos que mais tenho de corrigir é mexer muito as mãos. Não tenho qualquer intenção de deixar de o fazer, mas tenho muito por onde corrigir esta “mania”, sem perder o meu estilo pessoal.

Só com treino ou pedindo feedback a outras pessoas, é que é possível percebermos aquilo que fará de nós comunicadores mais impactantes e nos colocará no caminho da melhoria contínua.

4.     INSPIRE-SE

Pessoalmente, adoro Ted Taks, são a fonte de inspiração perfeita para vários dos pontos que refiro acima: linguagem corporal, poder de síntese, assertividade da mensagem, etc. Vendo vários exemplos, vou percebendo o que gosto e o que não gosto, com que estilo me identifico ou não e, em última instância, vou aprendendo, não apenas a comunicar melhor, mas também factos sobre os mais variados temas. Esta é das minhas preferidas.

5.    CONSTRUA UMA APRESENTAÇÃO SIMPLES, MAS IMPACTANTE.

(Muito) pouco texto, boas imagens. A atenção, o “sumo” da mensagem deve estar no que vem de nós, não na apresentação. Evite textos longos que demorem a ler, coloque apenas uma frase, 2 ou 3 bullet points, gráficos simples, e tudo em tamanho bem legível.

Não deixe que a apresentação tome conta da sua intervenção. Esta deve ser uma ferramenta de apoio, resumo ou reforço de um ponto mais forte que queiramos reiterar ao longo da mesma.

Encontra um sem fim de templates online que o ajudam a construir uma apresentação apelativa. Mais uma vez, inspire-se, procure diferentes estilos, e depois encontre o seu.

6.     OPTE POR ROUPA POUCO RUIDOSA.

Pode parecer redundante, mas o que queremos é que a atenção se centre na mensagem, nada mais, e quanto menos ruído existir à volta, melhor. E por isso peças de roupa com poucos padrões, monocromáticas, idealmente de cores neutras, são mais um elemento a contribuir para um bom resultado.

7.    AUTENTICIDADE

Não force um estilo de comunicação, encontre o seu. Através do treino, da repetição, vai percebendo qual é a sua forma de comunicar. Melhore-a, adapte-a, mas não a force. Não seja o que não é de verdade. A autenticidade será sempre o melhor de si.

 

DURANTE

1.    LINGUAGEM CORPORAL

A postura corporal pode ser a diferença entre transmitirmos confiança ou insegurança a quem nos ouve. Minutos antes da sua apresentação começar, adopte uma postura reta, aberta, sorridente. Assim vai passar confiança ao público e, mais importante, a si próprio.

2.     RESPIRE

Recentemente, numa conferência, coloquei a mão no ar para fazer uma pergunta aos apresentadores. Mas eis que fiquei nervosa, com o coração a bater muito rapidamente (quando sou eu no palco, isto não me acontece tanto…). Até o microfone chegar às minhas mãos, fiz umas quantas “respirações quadradas”. Quando chegou a minha vez, consegui colocar a tal questão de uma forma bem mais pausada e perceptível.

Mas há um ano atrás nem sequer sabia respirar devidamente. Foi o yoga que me ensinou. E hoje é uma ferramenta que uso para me acalmar num sem fim de situações.

Mas mesmo que não ande no Yoga, encontra na internet uma série de tutoriais para perceber a sua importância e como respirar . Aqui aprende o porquê e ainda pode sorrir, e aqui aprende a fazê-lo devidamente.

Serenar antes da apresentação é crucial para que consiga faze-la de forma mais pausada e, como tal, mais eloquente e perceptível para quem o ouve.

3.    CONTE UMA HISTÓRIA

Idealmente, comece com uma. Com Princípio, meio e fim, que corrobore a mensagem que quer transmitir. Ao faze-lo está desde logo a quebrar o gelo, a criar proximidade com o seu público, empatia, e a captar a sua atenção. E se conseguir introduzir um toque de humor, perfeito!

4.    APROXIME-SE DO SEU PÚBLICO

Fisicamente. Se possível, procure não ficar atrás de um púlpito ou mesa e, durante a intervenção, escolha um ou outro momento para se “aproximar”, passear pelo público.

5.    CONVERSE, OLHOS NOS OLHOS

De forma aleatória, olhe nos olhos, olhe directamente para esta pessoa ou aquela, de modo a envolve-los na sua apresentação. Faça perguntas simples, ao longo da mesma, de modo a gerar interação com o público e com o tema.

6.    USE APONTADOR

Parece tão básica esta dica, não é? Para mim, ter um apontador durante uma intervenção é a diferença entre ter um número de interrupções correspondente ao número de slides de uma apresentação, e ter uma intervenção fluída, sem interferências desnecessárias.

7.    ESTEJA PRESENTE

Não sei se já falou em público, mas é incrível o quão rápido tudo acontece, a velocidade a que o tempo passa. Mas ter mais consciência de cada uma das nossas palavras, prestar atenção à interacção com o público, à reacção do mesmo, permite-nos ter maior controle sobre o que e como dizemos, nomeadamente sobre a clareza e velocidade do discurso. E caso tenha seguido a regra nº1, ser-lhe á muito mais fácil colocar esta última em prática 😉.

8. INSPIRE

Transmitirmos uma mensagem a outro, seja uma só pessoa, sejam muitas, é uma responsabilidade e um privilégio. Acima de tudo, pode ter um poder inspirador e transformador em quem nos ouve. Depende de nós, quando usamos a nossa voz, fazer com que essa magia aconteça.

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